Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Foi a vez do Rúben ...

 

 

Hum…! Está bem. Vou falar com o Nicolau para ver se ele sabe da tua kika. – Disse a avó tentando alegrar Mafalda.
- E quando é que vais falar com Nicolau? – Disse Nicolau Jr.com alguma esperança.
- Acho que vou falar de imediato – Disse a avó, tentando animar Mafalda e Nicolau Jr..
- Estou sim, Nicolau?! Surgiu um problema e gostava de saber se podias ajudar-me? – Disse a avó sorrindo, ao telefone.
- Claro, minha velha amiga! Podes contar sempre comigo. Então diz lá o que precisas? – Respondeu Nicolau franzindo a testa de curiosidade do outro lado da linha.
- A Mafalda perdeu a sua ursinha, a Kika, lembras-te? Aquele peluche que lhe deram que era da tua fábrica de brinquedos. Por acaso viste a ursinha? – Perguntou a avozinha esperançada que o seu velho amigo a ajudasse.
- Peço desculpa, mas ela não está na fábrica, e também não a vi por aqui. Mas acho que podemos ir procurá-la com a ajuda do meu trenó.
- Excelente ideia! – Exclamou Nicolau Jr..
- Então vamos! Não há tempo a perder. Temos um dia inteiro pela frente. – Rematou Nicolau Jr., fazendo um sorriso a Mafalda e piscando o olho à avó.
Nicolau usou os dons do seu trenó mágico e, num estalar de dedos, estava junto dos seus amigos. Todos entraram animados para dentro do misterioso transporte, todos desejaram nunca o ter feito dez minutos depois de percorrer o céu aos zig-zags, de furar as nuvens e ver o Mundo ao contrário. Quando Nicolau se lembrou que andar de trenó pela primeira vez é uma tarefa que nem Hércules desejaria empreender, já era tarde. Já todos se contorciam agoniados no lugar traseiro do veículo. Abrandou e, finalmente, todos suspiraram de alívio.
- Estou a ficar seriamente aborrecida, o dia já caiu e a kika continua desaparecida. – Disse Mafalda a chorar, desesperada.
- Por favor, minha querida, não fiques assim. Custa-me muito ver uma amiga do meu neto triste – Disse a avó com uma lágrima a querer sair pelo canto do olho.
- Nicolau Jr., Mafalda! Vamos para casa. Amanhã continuamos a procurar, e tenho a certeza que vamos encontrar a kika – Afirmou a avó não querendo mostrar a sua incerteza.
- Sim, a vossa avó tem razão, vão descansar e amanhã continuamos as buscas. – Disse o Pai Natal Nicolau, com um sorriso que faria qualquer criança brilhar de esperança.
- Ah! Não acredito, o kiko encontrou a kika. – Disse Mafalda gritando de alegria, correndo logo a contar a Nicolau Jr..
– Nicolauuu! Acorda depressa, o kiko encontrou a kika.
- Bom dia! A sério?! Que maravilha! Óptima notícia para começar o dia. Mas onde está ele? – Perguntou Nicolau sorrindo.
- Está ali em baixo, não vês? – Perguntou Mafalda.
- Vamos ter com eles e perguntar ao kiko onde encontrou a ursinha. – Sugeriu Nicolau correndo pelas escadas fora.
- kiko, onde encontraste a kika?! – Perguntou Mafalda levantando o sobrolho.
- Mi ter encontrado kika ne parque de crianças – Disse kiko tentando falar português correcto.
- Kiko, kiko…! O teu português está cada vez pior, mas muito obrigado por tudo. – Disse Mafalda verdadeiramente grata.
 Passado um mês, o Natal estava a aproximar-se.
- Mafalda! Vamos comer os bolinhos da minha avó? – Disse Nicolau Jr..
- Sim, vamos já! Já estou com “água na boca” – Disse Mafalda lambendo os lábios.
- Meninos, que querem da cozinha!? – Perguntou a avó.
- “Queremos Bolinhos!” – disseram Mafalda e Nicolau Jr. em coro.
- Agora não! Vão ter de esperar pelo Natal, falta pouco tempo e tenho que ajudar Nicolau nesta época de grande azáfama. – Disse a avozinha – Vou ligar ao Nicolau para saber quantos quilos de bolo ele precisa, embora esteja muito gordo, e saber se precisa de nós na Fábrica de Brinquedos.
- Está bem, avó! Se ele precisar de nós, diz-lhe que estamos disponíveis. – Disse Nicolau Jr..
- Estou sim?! Nicolau, liguei para saber quantos quilos de bolo vais querer para as festas de Natal do Mundo inteiro? – Perguntou a avó ao telefone.
- O Nicolau não vai querer nada! Eu quero é 50 000 euros e, em troca, devolvo-lhe o Pai natal – disse alguém do outro lado da linha, presumindo a pobre senhora ser um raptor.
- Oh, meu Deus! E agora? – Perguntou a avó desesperada. – Como ajudamos o Nicolau? O que será do Natal sem Pai Natal? O Mundo inteiro sem prendas debaixo das árvores, sem recordações nas meias penduradas à lareira, as crianças sem resposta às suas cartas, … Quando contou a Nico e a Mafalda, estes deixaram cair das mãos os biscoitos que tinham roubado na cozinha.

 bem. Vou falar com o Nicolau para ver se ele sabe da tua kika. – Disse a avó tentando alegrar Mafalda.

- E quando é que vais falar com Nicolau? – Disse Nicolau Jr.com alguma esperança.

- Acho que vou falar de imediato – Disse a avó, tentando animar Mafalda e Nicolau Jr..

- Estou sim, Nicolau?! Surgiu um problema e gostava de saber se podias ajudar-me? – Disse a avó sorrindo, ao telefone.

- Claro, minha velha amiga! Podes contar sempre comigo. Então diz lá o que precisas? – Respondeu Nicolau franzindo a testa de curiosidade do outro lado da linha.

- A Mafalda perdeu a sua ursinha, a Kika, lembras-te? Aquele peluche que lhe deram que era da tua fábrica de brinquedos. Por acaso viste a ursinha? – Perguntou a avozinha esperançada que o seu velho amigo a ajudasse.

- Peço desculpa, mas ela não está na fábrica, e também não a vi por aqui. Mas acho que podemos ir procurá-la com a ajuda do meu trenó.

- Excelente ideia! – Exclamou Nicolau Jr..

- Então vamos! Não há tempo a perder. Temos um dia inteiro pela frente. – Rematou Nicolau Jr., fazendo um sorriso a Mafalda e piscando o olho à avó.

Nicolau usou os dons do seu trenó mágico e, num estalar de dedos, estava junto dos seus amigos. Todos entraram animados para dentro do misterioso transporte, todos desejaram nunca o ter feito dez minutos depois de percorrer o céu aos zig-zags, de furar as nuvens e ver o Mundo ao contrário. Quando Nicolau se lembrou que andar de trenó pela primeira vez é uma tarefa que nem Hércules desejaria empreender, já era tarde. Já todos se contorciam agoniados no lugar traseiro do veículo. Abrandou e, finalmente, todos suspiraram de alívio.

- Estou a ficar seriamente aborrecida, o dia já caiu e a kika continua desaparecida. – Disse Mafalda a chorar, desesperada.

- Por favor, minha querida, não fiques assim. Custa-me muito ver uma amiga do meu neto triste – Disse a avó com uma lágrima a querer sair pelo canto do olho.

- Nicolau Jr., Mafalda! Vamos para casa. Amanhã continuamos a procurar, e tenho a certeza que vamos encontrar a kika – Afirmou a avó não querendo mostrar a sua incerteza.

- Sim, a vossa avó tem razão, vão descansar e amanhã continuamos as buscas. – Disse o Pai Natal Nicolau, com um sorriso que faria qualquer criança brilhar de esperança.

- Ah! Não acredito, o kiko encontrou a kika. – Disse Mafalda gritando de alegria, correndo logo a contar a Nicolau Jr..

– Nicolauuu! Acorda depressa, o kiko encontrou a kika.

- Bom dia! A sério?! Que maravilha! Óptima notícia para começar o dia. Mas onde está ele? – Perguntou Nicolau sorrindo.

- Está ali em baixo, não vês? – Perguntou Mafalda.

- Vamos ter com eles e perguntar ao kiko onde encontrou a ursinha. – Sugeriu Nicolau correndo pelas escadas fora.

- kiko, onde encontraste a kika?! – Perguntou Mafalda levantando o sobrolho.

- Mi ter encontrado kika ne parque de crianças – Disse kiko tentando falar português correcto.

- Kiko, kiko…! O teu português está cada vez pior, mas muito obrigado por tudo. – Disse Mafalda verdadeiramente grata.

 Passado um mês, o Natal estava a aproximar-se.

- Mafalda! Vamos comer os bolinhos da minha avó? – Disse Nicolau Jr..

- Sim, vamos já! Já estou com “água na boca” – Disse Mafalda lambendo os lábios.

- Meninos, que querem da cozinha!? – Perguntou a avó.

- “Queremos Bolinhos!” – disseram Mafalda e Nicolau Jr. em coro.

- Agora não! Vão ter de esperar pelo Natal, falta pouco tempo e tenho que ajudar Nicolau nesta época de grande azáfama. – Disse a avozinha – Vou ligar ao Nicolau para saber quantos quilos de bolo ele precisa, embora esteja muito gordo, e saber se precisa de nós na Fábrica de Brinquedos.

- Está bem, avó! Se ele precisar de nós, diz-lhe que estamos disponíveis. – Disse Nicolau Jr..

- Estou sim?! Nicolau, liguei para saber quantos quilos de bolo vais querer para as festas de Natal do Mundo inteiro? – Perguntou a avó ao telefone.

- O Nicolau não vai querer nada! Eu quero é 50 000 euros e, em troca, devolvo-lhe o Pai natal – disse alguém do outro lado da linha, presumindo a pobre senhora ser um raptor.

- Oh, meu Deus! E agora? – Perguntou a avó desesperada. – Como ajudamos o Nicolau? O que será do Natal sem Pai Natal? O Mundo inteiro sem prendas debaixo das árvores, sem recordações nas meias penduradas à lareira, as crianças sem resposta às suas cartas, … Quando contou a Nico e a Mafalda, estes deixaram cair das mãos os biscoitos que tinham roubado na cozinha.

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O nosso Luís ...

 

No dia seguinte, Nicolau acordou com o barulho de alguém a bater com mão pesada na porta do seu quarto. Era um barulho ensurdecedor e que não passava despercebido a ninguém que ali morava. Com um pouco de receio, Nicolau dirigiu-se lentamente à porta para ver o que se passava, para descobrir o motivo de tal berraria. Ele abriu a porta e, num ápice, aparece Mafalda, incrédula ainda com a situação que se tinha passado. Ela estava muito apreensiva e exaltada, pois a sua noite de fadas tinha-se tornado num pesadelo horrível.

- O que se passa contigo?!!! – Exclamou Nicolau muito assustado com Mimi.

- Nem imaginas o que me aconteceu esta noite!!! – Respondeu Mafalda muito nervosa.

- Então desembucha lá. – Disse Nicolau com um tom um pouco mais descontraído, depois de saber que o alarido era só e simplesmente a sua vizinha Mafalda afogueada por uma razão que estava prestes a conhecer.

- Isto é um assunto sério Nicolau!!! Quando acordei durante a noite para ir à casa de banho, reparei que a minha ursinha Kika não estava lá e não faço a mínima ideia de quem teve a ideia de fazer tamanha barbaridade a uma pobre e inocente ursinha como ela... além disso, a minha porta do quarto fica sempre fechada à chave, pois eu sinto-me segura com o meu Kiko. Preciso mesmo da tua ajuda Nicolau... sem ti não sei como hei-de começar a procurar a Kika!!! – Disse Mafalda muito zangada, começando depois a chorar ao olhar aquele rato com uma saia cor-de-rosa que Nicolau lhe tinha oferecido, numa tentativa de a agradar, quando ela se mudou para a sua rua.

- Bem, isto é mesmo muito mais sério do que eu pensava. – Lamentou-se Nicolau, sentindo pena da pobre Mimi e por tudo o que ela estava a passar naquele momento.

– Acho que podemos tentar falar com a minha avózinha para ver se ela consegue contactar o Nicolau, mas penso que não vai valer muito a pena, pois ele não sabe onde se escondeu a tua ursinha.

- Eu acho uma boa ideia, talvez o Nicolau saiba como possamos encontrar a Kika, já que ela foi feita na Fábrica de Brinquedos dele. – Afirmou Mafalda, agora um pouco mais animada por ter ao seu lado um companheiro precioso que a ajudaria a encontrar a sua Kika.

Dito isto, desceram prontamente as escadas e, correram até à cozinha, onde se já sentia o cheiro de mais um dos muitos cozinhados deliciosos da avó, que faziam “crescer água na boca”.

- Oh meus queridos meninos! Quase me matam do coração! – Disse a avó muito assustada com o barulho que Mafalda e Nicolau fizeram ao descer as escadas.

– Se quiserem um biscoito não é necessário fazer esta barulheira que acabaram de fazer... ainda podiam ter caído das escadas e depois sim, iríamos ter sérios e graves problemas.

- Nós sabemos avó... – Disse Nicolau já um pouco enfadado das conversas que a avó tinha com ele para lhe explicar o que ele devia ou não fazer, pensava que já não era uma criança e estava farto dos sermões da avó. Queria ser livre e ter a sua própria autonomia... queria crescer e queria ser independente, queria tudo muito depressa, como é próprio da inocência das crianças.

– ... mas eu não vinha por causa dos teus biscoitos maravilhosos e saborosos. A ursinha da Mafalda desapareceu e nós vamos tentar falar com o Nicolau para ver se ele tem alguma pista sobre o paradeiro da Kika.

Esperançado, Nicolau estava à espera de uma resposta da avó, que parecia um pouco apreensiva e nervosa.

- O que se passa avó??? – Disse Nicolau um pouco desconfiado da sua atitude, coisa que não era normal na sua personalidade.

- Bem, receio que o Nicolau não te possa ajudar na tarefa de que pretendes encarregá-lo. – Respondeu a avó com uma voz triste e profunda.

- Por que não? – Perguntou Mafalda muito admirada com a resposta da avó de Nicolau. Ela sabia que Nicolau tinha sido sempre um amigo presente e que nunca a ia deixar sem auxílio num momento tão difícil. Mafalda era uma pequena criança enfeitiçada pelos seus peluches e encantada pela sua companhia, estivesse ela no meio de uma tempestade ou a saborear a bonança, fosse ela princesa numa história de encantar ou uma guerreira a combater o ser mais poderoso e maléfico do Universo.

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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

O Pedro Coelho acrescentou

Nicolau estava muito impressionado e corava de felicidade. Estar naquela fábrica gigante, cheia de brinquedos, era tudo o que uma criança desejava. Ainda não tinham iniciado o tal processo de colonização, ainda nenhum dos dois percebera muito bem o que o Pai Natal queria dizer com aquela história de “dar vida aos peluches e robôs”, quando …

- Nicolau! – Exclamou a avozinha. Nicolau não estava ali.

A avó procurou-o durante horas a fio, entre estantes e caixotes, roldanas dentadas em tapetes rolantes, vasilhas e armários, nos corredores imensos, nas salas com porta, sem porta, cheias, vazias, limpas, sujas … não havia sinais de Nicolau.

O Pai Natal e Mafalda estavam entretidos a fazer espectaculares corridas com carrinhos de controlo remoto e a avó, já desesperada, resolveu contar-lhes que Nicolau estava desaparecido e pedir ajuda para o encontrar.

O que se passa? – Perguntaram quando a viram com as rugas da testa mais vincadas do que costume.

- O Nicolau desapareceu. Estou há horas à procura, mas …

Nesse preciso instante, os alarmes foram disparados e as portas da fábrica fechadas para que Nicolau não saísse do seu interior. Lágrimas de aflição escorriam na cara da avó e contrastavam com o sol que entrava pelas velhas janelas, cheias de pó, da centenária fábrica de brinquedos.

Quando os três já tinham perdido a esperança e a avó olhava o relógio fazendo contas por alto, Nicolau saiu, sorridente e distraído, debaixo de uma mesa, com um pequeno carro amarelo-torrado, com nitro, néon e todos os acessórios possíveis de imaginar.

- Nicolau!! – Gritaram em coro, ainda incrédulos com a situação.

- Olá! – Respondeu muito calmamente, mas estranhando as feições da avó, que tão bem conhecia e tanto respeitava.

- Avó, descascaste cebolas? – Perguntou de sobrolho franzido, como quem pressente que algo que lhe está a escapar, mas cuja inocência de criança não deixa descortinar.

A avó pensou que a estava a gozar, por isso, dirigiu-se a ele cheia de ganas e pregou-lhe uma estalada, misto de raiva e de alívio. Nicolau só pensava que há dias em que não nos devíamos levantar da cama, há dias em que passamos o tempo a levar deste e daquele, por esta e por aquela razão.

- Pregaste-nos um grande susto! – Disse a avó ainda em estado de choque.

Nicolau, Mafalda e Nicolau Jr. mantinham-se  com um ar bastante apreensivo e ficaram em silêncio alguns segundos, até Nicolau olhar para o relógio e exclamar: - Já é tão tarde!

- Pois é. – Concordou Mafalda.

Faltava uma hora e meia para a fábrica fechar e Nicolau lembrou-se que Mafalda ainda não tinha nenhum brinquedo novo, lapso grave no seu protocolo de Deus-dos-brinquedos. Foi direito à secção de “Dar Vida aos Peluches” e achou engraçada uma ursinha de olhar lânguido e posse dramática e achou que Mafalda iria adorá-la.

Esteve quase uma hora a transformar a ursinha num peluche apaixonante, queria que ficasse um espanto.

Sentada num cavalinho de baloiço, entre Nicolau Jr. e a avozinha, Mafalda aguardava ansiosa, mas pacientemente, a chegada de Nicolau e imaginava o seu presente enorme, num belo papel de embrulho e um estupendo laço cor-de-rosa em toda a sua volta.

Quando finalmente chegou, vinha com um sorriso desdentado, exibindo orgulhosamente a sua majestosa barriga e com um embrulho entre mãos, que estendeu a Mafalda de olhar surpreso, aquele que fazemos sempre que a felicidade é grande de mais para caber num sorriso.

Abriu. Era uma ursinha fofa, com um lacinho cor-de-rosa e olhos verdes. Mafalda, que raramente expressava qualquer tipo de sentimento positivo, esbanjou gargalhadas de espanto e admiração. Achava-a parecida com o seu Kiko que ficara em casa de vigia.

- Gostaste? – Perguntou-lhe, animado pela alegria de oferecer a quem quer receber.

- Adorei!! E acho que já sei que nome lhe vou dar! – Levantou-se tomada pelo ânimo e determinação.

- Qual? – Perguntou o Pai Natal curioso.

- Kika! – Respondeu decidida.

A fábrica fechou e eles saíram. Estavam exaustos e cheios de sono.

Mal a Mafalda chegou a casa, correu a apresentar a Kika ao seu Kiko. Não se falaram, mas o Kiko lançou-lhe um olhar embeiçado, o que não era de estranhar, pois apesar de ainda não ter ficado evidente nesta narrativa, Kiko é um pinga-amor de primeira categoria. Mafalda lavou os dentes, e foi deitar-se abraçada aos seus dois ursos. Nessa noite o pó e a sujidade não pareciam afectá-la. Um brinquedo novo é tudo para uma criança.

Aconteceu o mesmo com Nicolau. Lavou os dentes, pegou no seu super mini-carro amarelo com nitro e néon e foi dormir, sem necessidade de sonhar aventuras por já as ter vivido acordado.

 

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Terça-feira, 3 de Março de 2009

A Sara disse de sua justiça

-Hmm… nem pensar! - Respondeu, embaraçado – Na verdade, ia oferecer-to. Achei que esse teu… Kiko – Disse, afastando-se instintivamente para trás, tendo o cuidado de verificar se não tinha qualquer outro pelotão de peluches que o pudessem atacar e arrancar-lhe uma perna à dentada. – Pensei que o teu urso já estivesse demasiado…sujo e gasto, pelo menos para uma rapariga como tu.

Mafalda deu dois passos em frente e pregou-lhe uma estalada no rosto.

-Olha para ele! – Disse Mimi, praticamente aos berros. – Olha para o meu Kiko! – Voltou a gritar, obrigando-o (o mais solenemente possível no momento) a obedecer às suas ordens.

-O que é que tem? – Protestou o rapaz, ainda com a mão na cara.

-Achas que eu trocava um brinquedo que fala, anda, faz tudo, sem exageros da minha parte, por um rato aborrecido com uma saia cor-de-rosa?! Achas mesmo?

-Acho… mas tu ainda há pouco me disseste que bastava um “Abracadabra” para que tudo o que quisesses se realizasse mais rápido do que a própria luz! Podias dar-lhe vida e fazer com que ele fosse tão hábil como o Kiko...

Foi nessa altura que Kiko não se conteve e voltou à carga, saltando-lhe de novo para cima.

-Ninguém é mais bom fofo q’eu! – Dizia, utilizando esta sentença como grito de guerra temporário. O pequeno urso tinha alguns problemas no seu português, o que às vezes se tornava embaraçoso, especialmente quando Mimi (muito ocasionalmente) gozava com os seus erros gramaticais.

-Oh, Kiko, deixa a pobre criança em paz! – Disse alguém. Alguém, cuja voz, Nicolau, por mais estranho que lhe parecesse na altura, conhecia muito bem.

-Avó? – Tentou perceber, fazendo um esforço para conseguir ver para além do focinho do traste que se encontrava exactamente em cima da sua cabeça, de pernas para o ar e patas dianteiras quase que enfiadas nas suas narinas.

-Abracadabra! – Disse a velhinha, erguendo a sua varinha no ar, fazendo com que Kiko caísse no chão desamparado, tal e qual como uma barata de costas viradas para a terra.

-Umph… - Grunhiu o urso, aborrecido. – Mi estar quase a mandar Nicolau embora…

-Deixa-o estar, Kiko – Disse a avó. – Já nos vamos embora e, como castigo, ficas em casa. – Dito isto, a velhinha estalou os dedos e, não sabendo bem como, reapareceram num sítio totalmente desconhecido. Pelo menos a Nicolau.

-Sejam bem-vindos! – Disse um homem gordo, de grandes barbas brancas e um largo fato vermelho. Parecia simpático aos olhos de Nicolau.

-Estávamos à vossa espera há já uma longa hora… enfim, menina Mafalda, gostaríamos de iniciar o processo de colonização o mais rápido possível.

-Processo de colo… quê? – Exclamou o rapaz, ainda mais confuso que antes (se isso era sequer possível) – E já agora, o que raio é que tu fazes aqui, avozinha? E como é que viemos aqui parar? E-e quem é este senhor…? E…Mas…

-Nicolau! – Chamou a avó. – Estás a ser muito malcriado! E, por favor, não faças perguntas sob perguntas. Nós explicamos-te tudo quando chegarmos ao armazém.

-Mas qual armaz…?! - A avó olhou seriamente para ele, fazendo com que se calasse, abraçando-o de seguida.

-Vamos. Eu conduzo-vos até lá.

-E cá estamos nós. – Disse o homem que, estranhamente, lhe parecia sempre sorridente e feliz. Se calhar era porque a sua vida nunca fora aborrecida e monótona, como a de Nico. Se calhar era porque nunca tivera que brincar com soldadinhos de plástico e sentir-se completamente ridículo. Se calhar era porque tinha poderes especiais, como Mimi! É claro que não se admirava nada se fosse verdade… para ele, já era uma coisa banal, depois das vivências desta noite.

Era impressionante! Só agora é que reparara que estava no meio de uma verdadeira aventura, o que o deixava realmente entusiasmado. Sabia que isto era tudo o que sempre sonhara desde pequeno, embora só se tenha apercebido mais tarde.

-Querem comer alguma coisa? É que eu tenho um bocado de fome… - Disse o homem, passando as suas enormes mãos pela barriga que, como é de imaginar, ainda era maior que o resto do corpo.

-Pois é. Já consigo ouvir o teu estômago a pedinchar comida, Nicolau. – Verbalizou a avó.

-Mas eu não tenho fome! – Exclamou o pequeno rapaz – E, por acaso, não consigo ouvir nada que venha da minha barriga… - Disse, encolhendo-se entre os seus braços, tentando captar algum ruído fora do normal.

-Não és tu, Nico. – Disse Mafalda – A avozinha estava a falar com o Pai Natal, não era contigo. Só que acontece que têm o mesmo nome. Esquisito, não é?

 -Podes crer. – Disse o Pai Natal, descontraído, deliciando-se com o banquete de doces que tinha à sua frente. – Yamy! – Dizia, enquanto lambia os dedos.

-Oh… Nicolau, precisas de uma dieta, e desta vez é a sério. – Queixou-se a avó, enquanto observava o Pai Natal a comer tão depressa que parecia que o mundo ia acabar já amanhã.

O homem fez uma pausa. – Hmm… fica para amanhã… ou para depois de amanhã, porque hoje chega aquele leitãozinho que tinha encomendado no Zé… - o “grande” Nicolau juntou as mãos gordurosas, como quem reza, fazendo olhar de cachorrinho abandonado directamente para a avó. – Por favor… eu prometo que, a partir de depois de amanhã, eu começo definitivamente a perder peso.

-Acho bem que sim. É que daqui a nada esse teu traseiro gigante deixa de caber no trenó.

E assim continuaram, discutindo acerca do traseiro do Pai Natal até às cinco da manhã. Nico estava surpreso, tirando o facto de o tema da conversa se basear no enorme traseiro do Pai Natal, Nico estava eternamente grato a Mimi, que participara activamente, opinando sobre tudo aquilo que era dito sobre … o assunto. A avozinha limitava-se a criticar cada banha sobressalente do Pai Natal e o próprio, dizia sentir-se bem, pois era assim que as crianças o achavam fofo e adorável, argumentando que um Pai Natal musculado e de abdominais definidos não convence a mais distraída das crianças. Fora uma noite e peras, diferente de todas as que já vivera.

Já eram três da tarde. Levantaram-se, vestiram-se e lavaram-se, sempre de sorriso rasgado, a preencher os rostos iluminados por um brilho, cuja origem Nico começava agora a descobrir.

Nico continuava perdido nos seus pensamentos. Tivera um pesadelo na noite anterior (e não, não envolvia o traseiro do Pai Natal…). Simplesmente decidiu mudar o rumo da sua mente por um pouco, pois não estava com muita disposição para visualizar tudo uma segunda vez.

-Este armazém é espectacular! - Disse Nico, com um leve brilho de fascínio no seu olhar.

Encontrava-se num sítio espectacular. Sentia-se quase como dentro de uma loja de brinquedos. De facto, estava lá. Na maior fábrica de brinquedos que alguma vez viria.

-Pronto. É ali ao fundo. Mimi, tu vens comigo e começas por dar vida aos peluches, passando pelos robôs, e assim por diante.

 

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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A Leonor continuou ...

 

 

Foi com estes pensamentos que, quando a casa do lado foi comprada e os novos vizinhos chegaram, ele achou que era uma boa altura para começar a exercer a sua função de herói de histórias de encantar.
O problema era que a rapariga que vinha com eles não era particularmente fácil de agradar. Mafalda não gostava do seu nome, não gostava da sua casa, não gostava do seu cabelo, não gostava de fraldas, não gostava de caixas e, acima de tudo, detestava pó. Sujidade e pó.
Infelizmente, os indesejados, pó e sujidade, eram características distintivas da sua nova casa, o que a deixava num estado de constante mau humor. Não a entendam mal – ela também gostava de muitas coisas. O urso de peluche que carregava consigo, o Kiko, era disso um bom exemplo. Os seus pais também. E, naquele momento, mais nada, porque ela não estava com vontade de gostar de mais coisas. Incluindo do oh-tão-discreto vizinho que, artilhado com os seus binóculos e lanterna, procedia a olhar para ela como se ela fosse um dinossauro cor-de-rosa e conseguia ser ainda mais irritante do que as suas outras idosas vizinhas que, misteriosamente, sabiam sempre tudo o que se passava num raio de 20km. Concluía que talvez fosse melhor avisar os vizinhos do lado de que o filho sofria de envelhecimento precoce...
Ignorante dos pensamentos de Mafalda, Nicolau, da sua base secreta lá em cima da árvore, espiava a pequena multidão de homens a entrarem e saírem pelas portas da casa e do camião. Ele não pôde deixar de reparar no urso que a menina loira e mal encarada abraçava, nem pôde evitar quando olhou desaprovadoramente para o peluche velho, com o pêlo desgastado e falta de um olho e de um braço.
Sendo ele próprio um fabricante de brinquedos e mais novo do que o trabalhador normal, sabia que nenhuma criança gostava de ursos velhos, meio cegos e com um dos braços amputado. Aliás, ele podia apostar a sua colecção de martelos em como era mesmo por isso que a rapariga estava tão zangada. Por alguma razão as crianças faziam birras quando os pais não lhes compravam os brinquedos que queriam e, por alguma razão, amuavam logo a seguir. Com certeza que era pela falta de um peluche decente que ela tinha o ar que tinha.
E era aí que ele, Nicolau, o auto-intitulado Concretizador de Sonhos entrava. Mas primeiro, como qualquer bom herói devia fazer, ele desceu da sua base secreta e foi comer o jantar. Seguindo as ordens da avó, obedientemente engoliu todos os seus legumes, rapou dois pratos de sopa, comeu uma peça de fruta e foi dormir às nove horas. No entanto, a avó não lhe disse quando é que tinha de acordar, por isso ele deu-se à liberdade de dormir durante meia horita antes de pôr em prática o seu plano.
Enfiando a sua lanterna e os seus binóculos dentro da mochila, Nicolau saltou janela fora e dirigiu-se à garagem, onde guardava todos os seus brinquedos. Tendo muito cuidado para não fazer barulho, entrou e começou a vasculhar na sua tralha, tentando encontrar um brinquedo para a desgostosa rapariga.
A tarefa revelou-se um desafio, pois Nicolau não fazia a mínima ideia do que é que raparigas gostavam. Sabia que todas elas eram loucas por bonecas, mas ele nunca se tinha dado ao trabalho de fazer uma. A única coisa que ele encontrou minimamente feminina era um rato de peluche, e a avó odiava ratos. Mas nem todas as raparigas eram assim, certo...?
Vendo que não tinha outra escolha, Nicolau resignou-se ao rato. No entanto, não se foi embora sem primeiro lhe coser uma saia à volta da cintura, pelo menos isso ele tinha a certeza de que raparigas gostavam. Estava prestes a sair porta fora quando olhou para o seu boneco do Monopólio. Ponderou durante uns segundos antes de concluir que o Monopólio já era suficientemente rico, e que o chapéu não lhe faria grande falta. Por isso, roubou-o, coseu-o à cabeça do rato e foi-se embora.
Na casa ao lado, Mafalda também não estava a dormir.
Ela tinha tentado, mas o estado em que o seu quarto estava não lhe permitia. Havia pó, caixas e sujidade por todo o lado. O pó fazia-a espirrar, as caixas faziam-na tropeçar no seu no caminho e a sujidade metia-lhe medo.
Se os pais sabiam que ela ficava acordada até altas horas a limpar tudo o que a rodeava, não o mostravam, e ela continuava com a sua obsessão por limpezas. Nelas, era sempre acompanhada por Kiko, o seu fiel guarda-costas. No entanto, a intervenção de Kiko nunca fora necessária até àquele dia.
Debaixo da janela do quarto da Mafalda, Nicolau estava a subir uma árvore. Com sorte, ele seria suficientemente sortudo e ágil para entrar no quarto dela sem fazer barulho ou acordá-la.
Este cuidado mostrou-se inútil, tendo em conta que ela já estava acordada há muito tempo. Por isso, quando ele finalmente conseguiu saltar para o parapeito da janela, a primeira coisa que viu foi um urso sem um braço a libertar um grito de guerra, a atirar-se à sua cara e a morder-lhe o nariz. Nicolau rapidamente ficou com muito má impressão da escolha de brinquedos que a rapariga fazia.
- GAHHHHH – gritou ele, entrando dentro do quarto e começando a correr para lado nenhum, tropeçando e esmagando várias caixas enquanto tentava arrancar o urso da cara, que o arranhava e dava dentadas bastante dolorosas. Ainda bem que era feito de tecido a envolver tenra esferovite, ou ele ficaria com umas cicatrizes muito feias.
No meio de tudo isto estava Mafalda, de espanador na mão e a olhar para eles com cara de parva. Ficou ali especada durante uns minutos antes de conseguir absorver o que estava a acontecer.
- KIKO! – Bradou ela, marchando até à salganhada e arrancando o urso da cara do rapaz. – O que é que eu te disse sobre não te mexeres à frente de pessoas!?
- MIMII!! – Chorou Kiko, agarrando-se com a sua única mão ao pijama da rapariga. – Ele estava a tentar atacar-te! Eu apenas te queria defender e ele é mau e...
E Nicolau, que horrorizadamente assistia àquilo tudo, afastou-se o mais possível do urso psicopata e encolheu-se num dos cantos do quarto, dando beliscões a si próprio e dizendo que tudo aquilo era um sonho. Apenas se sentiu mais aliviado, quando a menina mal encarada e o urso raivoso pararam de discutir e a rapariga lhe entregou uma garrafa de água e mandou o urso ir verificar se os seus pais tinham acordado. No entanto, foi arrancado do seu transe quando a tal “Mimi” largou um enorme calhamaço mesmo à sua frente e começou a folheá-lo, espirrando e resmungando quando uma nuvem de pó se levantou.
- O que é que estás a fazer? – Perguntou Nicolau hesitantemente, aproximando-se apenas um pouco mais para ver melhor o livro. Ela parou o que estava a fazer e olhou para ele durante uns segundos, antes de encolher os ombros e continuar à procura do que quer que fosse que queria.
- Vou apagar-te a memória.
Por alguma razão Nicolau não estava surpreendido. Deviam ser os efeitos do trauma de ter um peluche a tentar arrancar-nos a cara.
- Ah... Okay, e como é que vais fazer isso?
- Vou atirar um par de ervas para cima de ti, dizer Abracadabra e tu vais voltar para a tua casa que nem um zombie, adormecendo sem saber de nada. – Respondeu Mafalda, como se estivesse a falar sobre o tempo.
Nicolau deixou-se ficar calado, tentando decidir se devia fugir ou se era melhor ficar quieto e obedecer à rapariga. Achou que a última hipótese era a melhor, porque se era verdade que a “Mimi” era uma bruxa e que trazia brinquedos à vida, certamente que enfeitiçar um rapaz lhe era bastante fácil. No entanto, não ia desistir sem ao menos tentar fazer alguma coisa sobre o seu destino, ou então roubar alguma informação.
- Então... Aquele urso tem vida? – Perguntou. Ao que Mimi anuiu. – E como é que isso aconteceu?
- Disse Abracadabra, atirei um par de ervas para cima dele e puff .... Respondeu ela tão vagamente como antes, agora começando a reunir as tais ervas de que tinha falado.
- Gostarias de fazer o mesmo ao meu rato? – Voltou a perguntar ele, tirando o peluche de dentro da mala e exibindo-o em toda a sua glória.
Mafalda olhou para ele como se lhe tivessem crescido asas, e ele perguntou-se se tinha dito algo de mal. Estava prestes a guardar o rato e pedir-lhe desculpas quando ela voltou a falar.
- O teu peluche usa saia?
publicado por Papel digital às 12:27
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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Ainda sem título ...

Nicolau era um rapaz travesso, muito dado a disparates e a patifarias. Sonhava com aventuras incríveis, em terras longínquas, que existiam apenas na cartografia dos seus sonhos de criança curiosa e corava de felicidade quando alguém lhe contava as histórias dos grandes heróis.

Imaginava-se em duelos e combates contra monstros terríveis que desenhara na memória, recolhia-se nos seus devaneios e aninhava-se no seu mundo imaginário, em guerras travadas com enormes dragões verdes, largando fogo pela boca, como nas histórias do avô, ou voando no dorso de dinossauros, com a sua espada de cristal como companhia, enunciando gritos de incentivo e ordens de comando, a que o seu exército de coelhos, ursos, zebras, cavalos, búfalos e outros animais que conhecia das ilustrações da sua enciclopédia, prontamente obedecia.

Sempre fora assim. De manhã, quando acordava com cheiro dos cozinhados da avó, Nicolau deixava-se ficar enrolado nos cobertores, ainda estremunhado, a tentar sair dos sonhos daquela noite, para entrar nos sonhos de um novo dia. Ali ficava à espera que a avó entreabrisse a porta, deixando entrar um feixe de luz e, ainda de olhos fechados, recebia um beijo de ternura, acompanhado de cacau quente e bolachas de manteiga.

Nicolau era um menino feliz. Nunca se sentira só na sua multidão de gente imaginária que o seguia para todo o lado como uma sombra.

No Verão, construíra, com a ajuda do avô, uma cabana no cimo de uma árvore, de todas as árvores a mais alta e frondosa, escolhida depois de muitos cálculos dignos de génio e muitas hesitações, como exige a perfeição. Nessa cabana, passava ele as tardes de Verão a trincar azedas, deitado no chão de pernas cruzadas, a saborear os seus sonhos de algodão doce, onde vencia batalhas cruéis e sangrentas e corria o mundo que só conhecia das histórias que o avô lhe lia.

No Inverno, via a neve cair em zig-zag através das janelas e desenhava as primeiras letras nos vidros embaciados, cantarolando canções que ouvia no velho rádio rouco de pilhas gastas, que a avó estimava desde que a conhecia, e sem a companhia do qual se recusava a trabalhar na cozinha.

Nessas tardes de frio, era mais difícil suportar a solidão. Sentia-se ridículo nos seus longos diálogos com os brinquedos que o avô lhe fazia. Sentia-se, pela primeira vez, a falar sozinho. O seu exército imaginário deixara de fazer sentido, a sua multidão de amigos já não lhe respondia aos apelos.

 Nicolau começava a crescer. Queria partir agora para aventuras reais, com os pés bem assentes na terra, queria sentir dor, cansaço, queria suar, ter frio, passar fome, combater como os grandes heróis dos livros.

O avô insistia em ensiná-lo a construir brinquedos. Nicolau adorava o cheiro a tinta e a madeira tenra cortada. Passava horas com o avô no atelier, a pintar as caras rosadas das bonecas de vestidos de cetim que a avó costurava com requintes de alta-costura.

Enquanto decidia se oferecia uns olhos azuis, verdes ou castanhos a cada boneco, Nicolau perdia-se na rede retorcida dos seus pensamentos. De pincel suspenso no ar, cotovelo apoiado na mesa, pensava em todos aqueles a quem podia vir a ajudar, quem sabe oferecendo um daqueles brinquedos que o avô lhe ensinava a construir. Depois lembrava a alegria que sentira, durante todos os anos da sua infância feliz, quando o avô lhe trazia um colorido comboio novo, ou um mágico cavalo de madeira, um boneco articulado ou um baú de segredos. Queria explorar o mundo, queria explorar o seu coração, queria falar às multidões, queria coleccionar sorrisos e gargalhadas, queria contagiar o mundo com a sua felicidade.

 

 

 

 

publicado por Papel digital às 14:49
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