Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

O Pedro Coelho acrescentou

Nicolau estava muito impressionado e corava de felicidade. Estar naquela fábrica gigante, cheia de brinquedos, era tudo o que uma criança desejava. Ainda não tinham iniciado o tal processo de colonização, ainda nenhum dos dois percebera muito bem o que o Pai Natal queria dizer com aquela história de “dar vida aos peluches e robôs”, quando …

- Nicolau! – Exclamou a avozinha. Nicolau não estava ali.

A avó procurou-o durante horas a fio, entre estantes e caixotes, roldanas dentadas em tapetes rolantes, vasilhas e armários, nos corredores imensos, nas salas com porta, sem porta, cheias, vazias, limpas, sujas … não havia sinais de Nicolau.

O Pai Natal e Mafalda estavam entretidos a fazer espectaculares corridas com carrinhos de controlo remoto e a avó, já desesperada, resolveu contar-lhes que Nicolau estava desaparecido e pedir ajuda para o encontrar.

O que se passa? – Perguntaram quando a viram com as rugas da testa mais vincadas do que costume.

- O Nicolau desapareceu. Estou há horas à procura, mas …

Nesse preciso instante, os alarmes foram disparados e as portas da fábrica fechadas para que Nicolau não saísse do seu interior. Lágrimas de aflição escorriam na cara da avó e contrastavam com o sol que entrava pelas velhas janelas, cheias de pó, da centenária fábrica de brinquedos.

Quando os três já tinham perdido a esperança e a avó olhava o relógio fazendo contas por alto, Nicolau saiu, sorridente e distraído, debaixo de uma mesa, com um pequeno carro amarelo-torrado, com nitro, néon e todos os acessórios possíveis de imaginar.

- Nicolau!! – Gritaram em coro, ainda incrédulos com a situação.

- Olá! – Respondeu muito calmamente, mas estranhando as feições da avó, que tão bem conhecia e tanto respeitava.

- Avó, descascaste cebolas? – Perguntou de sobrolho franzido, como quem pressente que algo que lhe está a escapar, mas cuja inocência de criança não deixa descortinar.

A avó pensou que a estava a gozar, por isso, dirigiu-se a ele cheia de ganas e pregou-lhe uma estalada, misto de raiva e de alívio. Nicolau só pensava que há dias em que não nos devíamos levantar da cama, há dias em que passamos o tempo a levar deste e daquele, por esta e por aquela razão.

- Pregaste-nos um grande susto! – Disse a avó ainda em estado de choque.

Nicolau, Mafalda e Nicolau Jr. mantinham-se  com um ar bastante apreensivo e ficaram em silêncio alguns segundos, até Nicolau olhar para o relógio e exclamar: - Já é tão tarde!

- Pois é. – Concordou Mafalda.

Faltava uma hora e meia para a fábrica fechar e Nicolau lembrou-se que Mafalda ainda não tinha nenhum brinquedo novo, lapso grave no seu protocolo de Deus-dos-brinquedos. Foi direito à secção de “Dar Vida aos Peluches” e achou engraçada uma ursinha de olhar lânguido e posse dramática e achou que Mafalda iria adorá-la.

Esteve quase uma hora a transformar a ursinha num peluche apaixonante, queria que ficasse um espanto.

Sentada num cavalinho de baloiço, entre Nicolau Jr. e a avozinha, Mafalda aguardava ansiosa, mas pacientemente, a chegada de Nicolau e imaginava o seu presente enorme, num belo papel de embrulho e um estupendo laço cor-de-rosa em toda a sua volta.

Quando finalmente chegou, vinha com um sorriso desdentado, exibindo orgulhosamente a sua majestosa barriga e com um embrulho entre mãos, que estendeu a Mafalda de olhar surpreso, aquele que fazemos sempre que a felicidade é grande de mais para caber num sorriso.

Abriu. Era uma ursinha fofa, com um lacinho cor-de-rosa e olhos verdes. Mafalda, que raramente expressava qualquer tipo de sentimento positivo, esbanjou gargalhadas de espanto e admiração. Achava-a parecida com o seu Kiko que ficara em casa de vigia.

- Gostaste? – Perguntou-lhe, animado pela alegria de oferecer a quem quer receber.

- Adorei!! E acho que já sei que nome lhe vou dar! – Levantou-se tomada pelo ânimo e determinação.

- Qual? – Perguntou o Pai Natal curioso.

- Kika! – Respondeu decidida.

A fábrica fechou e eles saíram. Estavam exaustos e cheios de sono.

Mal a Mafalda chegou a casa, correu a apresentar a Kika ao seu Kiko. Não se falaram, mas o Kiko lançou-lhe um olhar embeiçado, o que não era de estranhar, pois apesar de ainda não ter ficado evidente nesta narrativa, Kiko é um pinga-amor de primeira categoria. Mafalda lavou os dentes, e foi deitar-se abraçada aos seus dois ursos. Nessa noite o pó e a sujidade não pareciam afectá-la. Um brinquedo novo é tudo para uma criança.

Aconteceu o mesmo com Nicolau. Lavou os dentes, pegou no seu super mini-carro amarelo com nitro e néon e foi dormir, sem necessidade de sonhar aventuras por já as ter vivido acordado.

 

publicado por Papel digital às 22:19
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