Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Ainda sem título ...

Nicolau era um rapaz travesso, muito dado a disparates e a patifarias. Sonhava com aventuras incríveis, em terras longínquas, que existiam apenas na cartografia dos seus sonhos de criança curiosa e corava de felicidade quando alguém lhe contava as histórias dos grandes heróis.

Imaginava-se em duelos e combates contra monstros terríveis que desenhara na memória, recolhia-se nos seus devaneios e aninhava-se no seu mundo imaginário, em guerras travadas com enormes dragões verdes, largando fogo pela boca, como nas histórias do avô, ou voando no dorso de dinossauros, com a sua espada de cristal como companhia, enunciando gritos de incentivo e ordens de comando, a que o seu exército de coelhos, ursos, zebras, cavalos, búfalos e outros animais que conhecia das ilustrações da sua enciclopédia, prontamente obedecia.

Sempre fora assim. De manhã, quando acordava com cheiro dos cozinhados da avó, Nicolau deixava-se ficar enrolado nos cobertores, ainda estremunhado, a tentar sair dos sonhos daquela noite, para entrar nos sonhos de um novo dia. Ali ficava à espera que a avó entreabrisse a porta, deixando entrar um feixe de luz e, ainda de olhos fechados, recebia um beijo de ternura, acompanhado de cacau quente e bolachas de manteiga.

Nicolau era um menino feliz. Nunca se sentira só na sua multidão de gente imaginária que o seguia para todo o lado como uma sombra.

No Verão, construíra, com a ajuda do avô, uma cabana no cimo de uma árvore, de todas as árvores a mais alta e frondosa, escolhida depois de muitos cálculos dignos de génio e muitas hesitações, como exige a perfeição. Nessa cabana, passava ele as tardes de Verão a trincar azedas, deitado no chão de pernas cruzadas, a saborear os seus sonhos de algodão doce, onde vencia batalhas cruéis e sangrentas e corria o mundo que só conhecia das histórias que o avô lhe lia.

No Inverno, via a neve cair em zig-zag através das janelas e desenhava as primeiras letras nos vidros embaciados, cantarolando canções que ouvia no velho rádio rouco de pilhas gastas, que a avó estimava desde que a conhecia, e sem a companhia do qual se recusava a trabalhar na cozinha.

Nessas tardes de frio, era mais difícil suportar a solidão. Sentia-se ridículo nos seus longos diálogos com os brinquedos que o avô lhe fazia. Sentia-se, pela primeira vez, a falar sozinho. O seu exército imaginário deixara de fazer sentido, a sua multidão de amigos já não lhe respondia aos apelos.

 Nicolau começava a crescer. Queria partir agora para aventuras reais, com os pés bem assentes na terra, queria sentir dor, cansaço, queria suar, ter frio, passar fome, combater como os grandes heróis dos livros.

O avô insistia em ensiná-lo a construir brinquedos. Nicolau adorava o cheiro a tinta e a madeira tenra cortada. Passava horas com o avô no atelier, a pintar as caras rosadas das bonecas de vestidos de cetim que a avó costurava com requintes de alta-costura.

Enquanto decidia se oferecia uns olhos azuis, verdes ou castanhos a cada boneco, Nicolau perdia-se na rede retorcida dos seus pensamentos. De pincel suspenso no ar, cotovelo apoiado na mesa, pensava em todos aqueles a quem podia vir a ajudar, quem sabe oferecendo um daqueles brinquedos que o avô lhe ensinava a construir. Depois lembrava a alegria que sentira, durante todos os anos da sua infância feliz, quando o avô lhe trazia um colorido comboio novo, ou um mágico cavalo de madeira, um boneco articulado ou um baú de segredos. Queria explorar o mundo, queria explorar o seu coração, queria falar às multidões, queria coleccionar sorrisos e gargalhadas, queria contagiar o mundo com a sua felicidade.

 

 

 

 

publicado por Papel digital às 14:49
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Foi a vez do Rúben ...

. O nosso Luís ...

. O Pedro Coelho acrescento...

. A Sara disse de sua justi...

. A Leonor continuou ...

. Ainda sem título ...

.arquivos

. Janeiro 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Julho 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds