Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A Leonor continuou ...

 

 

Foi com estes pensamentos que, quando a casa do lado foi comprada e os novos vizinhos chegaram, ele achou que era uma boa altura para começar a exercer a sua função de herói de histórias de encantar.
O problema era que a rapariga que vinha com eles não era particularmente fácil de agradar. Mafalda não gostava do seu nome, não gostava da sua casa, não gostava do seu cabelo, não gostava de fraldas, não gostava de caixas e, acima de tudo, detestava pó. Sujidade e pó.
Infelizmente, os indesejados, pó e sujidade, eram características distintivas da sua nova casa, o que a deixava num estado de constante mau humor. Não a entendam mal – ela também gostava de muitas coisas. O urso de peluche que carregava consigo, o Kiko, era disso um bom exemplo. Os seus pais também. E, naquele momento, mais nada, porque ela não estava com vontade de gostar de mais coisas. Incluindo do oh-tão-discreto vizinho que, artilhado com os seus binóculos e lanterna, procedia a olhar para ela como se ela fosse um dinossauro cor-de-rosa e conseguia ser ainda mais irritante do que as suas outras idosas vizinhas que, misteriosamente, sabiam sempre tudo o que se passava num raio de 20km. Concluía que talvez fosse melhor avisar os vizinhos do lado de que o filho sofria de envelhecimento precoce...
Ignorante dos pensamentos de Mafalda, Nicolau, da sua base secreta lá em cima da árvore, espiava a pequena multidão de homens a entrarem e saírem pelas portas da casa e do camião. Ele não pôde deixar de reparar no urso que a menina loira e mal encarada abraçava, nem pôde evitar quando olhou desaprovadoramente para o peluche velho, com o pêlo desgastado e falta de um olho e de um braço.
Sendo ele próprio um fabricante de brinquedos e mais novo do que o trabalhador normal, sabia que nenhuma criança gostava de ursos velhos, meio cegos e com um dos braços amputado. Aliás, ele podia apostar a sua colecção de martelos em como era mesmo por isso que a rapariga estava tão zangada. Por alguma razão as crianças faziam birras quando os pais não lhes compravam os brinquedos que queriam e, por alguma razão, amuavam logo a seguir. Com certeza que era pela falta de um peluche decente que ela tinha o ar que tinha.
E era aí que ele, Nicolau, o auto-intitulado Concretizador de Sonhos entrava. Mas primeiro, como qualquer bom herói devia fazer, ele desceu da sua base secreta e foi comer o jantar. Seguindo as ordens da avó, obedientemente engoliu todos os seus legumes, rapou dois pratos de sopa, comeu uma peça de fruta e foi dormir às nove horas. No entanto, a avó não lhe disse quando é que tinha de acordar, por isso ele deu-se à liberdade de dormir durante meia horita antes de pôr em prática o seu plano.
Enfiando a sua lanterna e os seus binóculos dentro da mochila, Nicolau saltou janela fora e dirigiu-se à garagem, onde guardava todos os seus brinquedos. Tendo muito cuidado para não fazer barulho, entrou e começou a vasculhar na sua tralha, tentando encontrar um brinquedo para a desgostosa rapariga.
A tarefa revelou-se um desafio, pois Nicolau não fazia a mínima ideia do que é que raparigas gostavam. Sabia que todas elas eram loucas por bonecas, mas ele nunca se tinha dado ao trabalho de fazer uma. A única coisa que ele encontrou minimamente feminina era um rato de peluche, e a avó odiava ratos. Mas nem todas as raparigas eram assim, certo...?
Vendo que não tinha outra escolha, Nicolau resignou-se ao rato. No entanto, não se foi embora sem primeiro lhe coser uma saia à volta da cintura, pelo menos isso ele tinha a certeza de que raparigas gostavam. Estava prestes a sair porta fora quando olhou para o seu boneco do Monopólio. Ponderou durante uns segundos antes de concluir que o Monopólio já era suficientemente rico, e que o chapéu não lhe faria grande falta. Por isso, roubou-o, coseu-o à cabeça do rato e foi-se embora.
Na casa ao lado, Mafalda também não estava a dormir.
Ela tinha tentado, mas o estado em que o seu quarto estava não lhe permitia. Havia pó, caixas e sujidade por todo o lado. O pó fazia-a espirrar, as caixas faziam-na tropeçar no seu no caminho e a sujidade metia-lhe medo.
Se os pais sabiam que ela ficava acordada até altas horas a limpar tudo o que a rodeava, não o mostravam, e ela continuava com a sua obsessão por limpezas. Nelas, era sempre acompanhada por Kiko, o seu fiel guarda-costas. No entanto, a intervenção de Kiko nunca fora necessária até àquele dia.
Debaixo da janela do quarto da Mafalda, Nicolau estava a subir uma árvore. Com sorte, ele seria suficientemente sortudo e ágil para entrar no quarto dela sem fazer barulho ou acordá-la.
Este cuidado mostrou-se inútil, tendo em conta que ela já estava acordada há muito tempo. Por isso, quando ele finalmente conseguiu saltar para o parapeito da janela, a primeira coisa que viu foi um urso sem um braço a libertar um grito de guerra, a atirar-se à sua cara e a morder-lhe o nariz. Nicolau rapidamente ficou com muito má impressão da escolha de brinquedos que a rapariga fazia.
- GAHHHHH – gritou ele, entrando dentro do quarto e começando a correr para lado nenhum, tropeçando e esmagando várias caixas enquanto tentava arrancar o urso da cara, que o arranhava e dava dentadas bastante dolorosas. Ainda bem que era feito de tecido a envolver tenra esferovite, ou ele ficaria com umas cicatrizes muito feias.
No meio de tudo isto estava Mafalda, de espanador na mão e a olhar para eles com cara de parva. Ficou ali especada durante uns minutos antes de conseguir absorver o que estava a acontecer.
- KIKO! – Bradou ela, marchando até à salganhada e arrancando o urso da cara do rapaz. – O que é que eu te disse sobre não te mexeres à frente de pessoas!?
- MIMII!! – Chorou Kiko, agarrando-se com a sua única mão ao pijama da rapariga. – Ele estava a tentar atacar-te! Eu apenas te queria defender e ele é mau e...
E Nicolau, que horrorizadamente assistia àquilo tudo, afastou-se o mais possível do urso psicopata e encolheu-se num dos cantos do quarto, dando beliscões a si próprio e dizendo que tudo aquilo era um sonho. Apenas se sentiu mais aliviado, quando a menina mal encarada e o urso raivoso pararam de discutir e a rapariga lhe entregou uma garrafa de água e mandou o urso ir verificar se os seus pais tinham acordado. No entanto, foi arrancado do seu transe quando a tal “Mimi” largou um enorme calhamaço mesmo à sua frente e começou a folheá-lo, espirrando e resmungando quando uma nuvem de pó se levantou.
- O que é que estás a fazer? – Perguntou Nicolau hesitantemente, aproximando-se apenas um pouco mais para ver melhor o livro. Ela parou o que estava a fazer e olhou para ele durante uns segundos, antes de encolher os ombros e continuar à procura do que quer que fosse que queria.
- Vou apagar-te a memória.
Por alguma razão Nicolau não estava surpreendido. Deviam ser os efeitos do trauma de ter um peluche a tentar arrancar-nos a cara.
- Ah... Okay, e como é que vais fazer isso?
- Vou atirar um par de ervas para cima de ti, dizer Abracadabra e tu vais voltar para a tua casa que nem um zombie, adormecendo sem saber de nada. – Respondeu Mafalda, como se estivesse a falar sobre o tempo.
Nicolau deixou-se ficar calado, tentando decidir se devia fugir ou se era melhor ficar quieto e obedecer à rapariga. Achou que a última hipótese era a melhor, porque se era verdade que a “Mimi” era uma bruxa e que trazia brinquedos à vida, certamente que enfeitiçar um rapaz lhe era bastante fácil. No entanto, não ia desistir sem ao menos tentar fazer alguma coisa sobre o seu destino, ou então roubar alguma informação.
- Então... Aquele urso tem vida? – Perguntou. Ao que Mimi anuiu. – E como é que isso aconteceu?
- Disse Abracadabra, atirei um par de ervas para cima dele e puff .... Respondeu ela tão vagamente como antes, agora começando a reunir as tais ervas de que tinha falado.
- Gostarias de fazer o mesmo ao meu rato? – Voltou a perguntar ele, tirando o peluche de dentro da mala e exibindo-o em toda a sua glória.
Mafalda olhou para ele como se lhe tivessem crescido asas, e ele perguntou-se se tinha dito algo de mal. Estava prestes a guardar o rato e pedir-lhe desculpas quando ela voltou a falar.
- O teu peluche usa saia?
publicado por Papel digital às 12:27
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