Terça-feira, 3 de Março de 2009

A Sara disse de sua justiça

-Hmm… nem pensar! - Respondeu, embaraçado – Na verdade, ia oferecer-to. Achei que esse teu… Kiko – Disse, afastando-se instintivamente para trás, tendo o cuidado de verificar se não tinha qualquer outro pelotão de peluches que o pudessem atacar e arrancar-lhe uma perna à dentada. – Pensei que o teu urso já estivesse demasiado…sujo e gasto, pelo menos para uma rapariga como tu.

Mafalda deu dois passos em frente e pregou-lhe uma estalada no rosto.

-Olha para ele! – Disse Mimi, praticamente aos berros. – Olha para o meu Kiko! – Voltou a gritar, obrigando-o (o mais solenemente possível no momento) a obedecer às suas ordens.

-O que é que tem? – Protestou o rapaz, ainda com a mão na cara.

-Achas que eu trocava um brinquedo que fala, anda, faz tudo, sem exageros da minha parte, por um rato aborrecido com uma saia cor-de-rosa?! Achas mesmo?

-Acho… mas tu ainda há pouco me disseste que bastava um “Abracadabra” para que tudo o que quisesses se realizasse mais rápido do que a própria luz! Podias dar-lhe vida e fazer com que ele fosse tão hábil como o Kiko...

Foi nessa altura que Kiko não se conteve e voltou à carga, saltando-lhe de novo para cima.

-Ninguém é mais bom fofo q’eu! – Dizia, utilizando esta sentença como grito de guerra temporário. O pequeno urso tinha alguns problemas no seu português, o que às vezes se tornava embaraçoso, especialmente quando Mimi (muito ocasionalmente) gozava com os seus erros gramaticais.

-Oh, Kiko, deixa a pobre criança em paz! – Disse alguém. Alguém, cuja voz, Nicolau, por mais estranho que lhe parecesse na altura, conhecia muito bem.

-Avó? – Tentou perceber, fazendo um esforço para conseguir ver para além do focinho do traste que se encontrava exactamente em cima da sua cabeça, de pernas para o ar e patas dianteiras quase que enfiadas nas suas narinas.

-Abracadabra! – Disse a velhinha, erguendo a sua varinha no ar, fazendo com que Kiko caísse no chão desamparado, tal e qual como uma barata de costas viradas para a terra.

-Umph… - Grunhiu o urso, aborrecido. – Mi estar quase a mandar Nicolau embora…

-Deixa-o estar, Kiko – Disse a avó. – Já nos vamos embora e, como castigo, ficas em casa. – Dito isto, a velhinha estalou os dedos e, não sabendo bem como, reapareceram num sítio totalmente desconhecido. Pelo menos a Nicolau.

-Sejam bem-vindos! – Disse um homem gordo, de grandes barbas brancas e um largo fato vermelho. Parecia simpático aos olhos de Nicolau.

-Estávamos à vossa espera há já uma longa hora… enfim, menina Mafalda, gostaríamos de iniciar o processo de colonização o mais rápido possível.

-Processo de colo… quê? – Exclamou o rapaz, ainda mais confuso que antes (se isso era sequer possível) – E já agora, o que raio é que tu fazes aqui, avozinha? E como é que viemos aqui parar? E-e quem é este senhor…? E…Mas…

-Nicolau! – Chamou a avó. – Estás a ser muito malcriado! E, por favor, não faças perguntas sob perguntas. Nós explicamos-te tudo quando chegarmos ao armazém.

-Mas qual armaz…?! - A avó olhou seriamente para ele, fazendo com que se calasse, abraçando-o de seguida.

-Vamos. Eu conduzo-vos até lá.

-E cá estamos nós. – Disse o homem que, estranhamente, lhe parecia sempre sorridente e feliz. Se calhar era porque a sua vida nunca fora aborrecida e monótona, como a de Nico. Se calhar era porque nunca tivera que brincar com soldadinhos de plástico e sentir-se completamente ridículo. Se calhar era porque tinha poderes especiais, como Mimi! É claro que não se admirava nada se fosse verdade… para ele, já era uma coisa banal, depois das vivências desta noite.

Era impressionante! Só agora é que reparara que estava no meio de uma verdadeira aventura, o que o deixava realmente entusiasmado. Sabia que isto era tudo o que sempre sonhara desde pequeno, embora só se tenha apercebido mais tarde.

-Querem comer alguma coisa? É que eu tenho um bocado de fome… - Disse o homem, passando as suas enormes mãos pela barriga que, como é de imaginar, ainda era maior que o resto do corpo.

-Pois é. Já consigo ouvir o teu estômago a pedinchar comida, Nicolau. – Verbalizou a avó.

-Mas eu não tenho fome! – Exclamou o pequeno rapaz – E, por acaso, não consigo ouvir nada que venha da minha barriga… - Disse, encolhendo-se entre os seus braços, tentando captar algum ruído fora do normal.

-Não és tu, Nico. – Disse Mafalda – A avozinha estava a falar com o Pai Natal, não era contigo. Só que acontece que têm o mesmo nome. Esquisito, não é?

 -Podes crer. – Disse o Pai Natal, descontraído, deliciando-se com o banquete de doces que tinha à sua frente. – Yamy! – Dizia, enquanto lambia os dedos.

-Oh… Nicolau, precisas de uma dieta, e desta vez é a sério. – Queixou-se a avó, enquanto observava o Pai Natal a comer tão depressa que parecia que o mundo ia acabar já amanhã.

O homem fez uma pausa. – Hmm… fica para amanhã… ou para depois de amanhã, porque hoje chega aquele leitãozinho que tinha encomendado no Zé… - o “grande” Nicolau juntou as mãos gordurosas, como quem reza, fazendo olhar de cachorrinho abandonado directamente para a avó. – Por favor… eu prometo que, a partir de depois de amanhã, eu começo definitivamente a perder peso.

-Acho bem que sim. É que daqui a nada esse teu traseiro gigante deixa de caber no trenó.

E assim continuaram, discutindo acerca do traseiro do Pai Natal até às cinco da manhã. Nico estava surpreso, tirando o facto de o tema da conversa se basear no enorme traseiro do Pai Natal, Nico estava eternamente grato a Mimi, que participara activamente, opinando sobre tudo aquilo que era dito sobre … o assunto. A avozinha limitava-se a criticar cada banha sobressalente do Pai Natal e o próprio, dizia sentir-se bem, pois era assim que as crianças o achavam fofo e adorável, argumentando que um Pai Natal musculado e de abdominais definidos não convence a mais distraída das crianças. Fora uma noite e peras, diferente de todas as que já vivera.

Já eram três da tarde. Levantaram-se, vestiram-se e lavaram-se, sempre de sorriso rasgado, a preencher os rostos iluminados por um brilho, cuja origem Nico começava agora a descobrir.

Nico continuava perdido nos seus pensamentos. Tivera um pesadelo na noite anterior (e não, não envolvia o traseiro do Pai Natal…). Simplesmente decidiu mudar o rumo da sua mente por um pouco, pois não estava com muita disposição para visualizar tudo uma segunda vez.

-Este armazém é espectacular! - Disse Nico, com um leve brilho de fascínio no seu olhar.

Encontrava-se num sítio espectacular. Sentia-se quase como dentro de uma loja de brinquedos. De facto, estava lá. Na maior fábrica de brinquedos que alguma vez viria.

-Pronto. É ali ao fundo. Mimi, tu vens comigo e começas por dar vida aos peluches, passando pelos robôs, e assim por diante.

 

publicado por Papel digital às 22:16
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